quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cap. 7 – Modus vivendi Cubano

Acordei no domingão, tomamos café-da-manhã (que era sempre pão, leite com chocolate e presunto frito. Agora tínhamos também manteiga, que eu havia trago do Brasil). Como o Eric havia chegado e só tinha uma cama, ele dormiu num catre. Emprestei meu sleeping bag pra ele fazer um colchão (olha como eu sou gente fina...) e então tive que improvisar um travesseiro com meu moleton. Não iria ser tão sacana de dar aquele travesseiro do país dos Polyphagotarsonemus latus pra ele.

Dei uma lida num Granma antigo que havia na casa, com uma grande reportagem-entrevista com o Evo Morales. O presidente boliviano apoiava fortemente as reformas implementadas por Raúl Castro, no intuito de modernizar Cuba e melhorar a vida dos habitantes da ilha.


Granma



É de fato impressionante a falta que uma imprensa livre faz... O jornal (único) é totalmente direcionado aos interesses do governo. Tudo que Evo Morales falava era no sentido de apoiar todas as mudanças implementadas recentemente por Raúl Castro. Se o presidente havia tirado um produto da libreta meses antes, Evo Morales falava e falava em defesa daquela atitude. Se o presidente havia determinado a extinção da empresa pública XPTO, lá estava Evo para defender a iniciativa do Comandante en Jefe...

Aproveitei a deixa e comecei um longo papo com o Enrique. Falamos sobre Cuba antiga, Cuba atual, as mudanças e as perspectivas para o futuro. Enrique é um socialista mas centrado, ponderado. Daqueles que dá pra conversar, debater idéias, discutir sem fundamentalismos e radicalismos. Ele acredita em Cuba, no socialismo, mas também não deixa de criticar os desvios, erros e as necessidades de ajustes. Roly também é assim, apenas um pouco mais enfático na defesa do país-regime. Creio que pela idade e pela mais experiência que tem (nasceu antes da Revolução, combateu em Gyron, viveu intensamente o período especial, etc.).

Enrique comentou alguns erros que acha gravíssimos. Primeiro os baixos salários e a equiparação entre carreiras totalmente distintas. Exemplo: ele tem curso superior (Engenheiro Químico) e ganha o equivalente a apenas 15 dólares por mês. Segundo ele, somado com o que o governo dá através da libreta, não se morre de fome. Mas tampouco dá pra viver bem. Por isso, todo mundo faz rolo, bico e desvios em Cuba. Além, o que mais indigna ele é que, por exemplo, um lixeiro ganha o mesmo salário dele!

Palavras do Enrique:

“João, não estou criticando ou menosprezando o trabalho do lixeiro. Muito pelo contrário. É um trabalho muito digno e extremamente necessário! De forma alguma eu gostaria de ver a cidade suja, o lixo espalhado na frente da minha casa, até por uma questão de saúde pública. Ocorre que pra ser lixeiro basta ter o ensino médio completo. Eu, ao contrário, fiz faculdade, estudei pra caramba. Não é justo que eu ganhe o mesmo salário! O trabalho intelectual é o trabalho mais cansativo que existe. Por isso tão poucas pessoas o fazem...”

Enrique prossegui me explicando que os maiores salários de Cuba são os de médicos, professores e de policiais. Em geral, 25 dólares por mês... Contou ainda que os médicos querem muito ir para fora (em missões do governo cubano na Venezuela ou em Angola), pois na volta têm seus salários dobrados. Pra 50 dólares mensais...

Creio que a grande vantagem de viajar de forma independente e ficar na casa de locais é exatamente esta. Poder conversar, entender de fato o país, como vivem seus habitantes, o que pensam, quais são suas expectativas, seus planos, etc.

Gosto de deixá-los falar, interferindo o mínimo, fazendo perguntas não-direcionadas, meio no estilo documentário Eduardo Coutinho. Enrique prosseguiu falando, falando, expondo suas idéias e concepções ideológicas. Perguntei a ele se conhecia a Yoani Sánchez e o que achava dela.

Ele me disse que sim, a conhecia, que já tinha lido o blog dela mas não gostou. Disse que ela exagera demais, que a vida em Cuba não é como ela retrata. Ele acredita que ela financiada por agentes externos (CIA?):

“João, sinceramente acho que dão atenção desproporcional à essa mulher. Concordo quando ela fala da falta de liberdade política e de expressão no país, mas o retrato que ela faz de Cuba é extremamente caricato e desproporcional à realidade. As pessoas não vivem como ela fala. Além, tem muita coisa estranha na atuação dela. Primeiro: você bem sabe a dificuldade que é acessar a internet aqui. Se ela tem acesso diário a internet, tem alguém bancando ou ela tá muito bem de vida... Segundo: achei um disparate o prêmio Ortega y Gasset ter sido concedido a um blog... Te afirmo que em Cuba esta mulher é totalmente desacreditada. Inclusive aqueles que criticam o regime não lhe dão legitimidade.”

Bueno, depois desta opinião forte, Enrique perguntou o que eu achava de tudo aquilo, o que eu estava achando de Cuba e qual era minha inclinação política. Dei uma bela sabonetada, pois não queria influenciar nas futuras respostas e relatos dele. Achei que qualquer opinião que eu desse poderia alterar o ritmo da fala, das revelações e da conversa. Para mim, o interessante era ouvir mais o Enrique e a família antes de começar a debater nossas diferenças políticas e ideológicas. Enfim, falei mais ou menos o seguinte:

“Bom, Enrique, eu creio que a vida do ser humano se baseia em dois direitos fundamentais: liberdade e igualdade. A escolha da preponderância de cada um deles é o que vai determinar a corrente ideológica que o indíviduo segue, bem como o sistema político-econômico de cada país. Países socialistas dão supremacia ao direito de igualdade, optando por fornecer condições de vida igualitárias em detrimento da liberdade individual e, por tabela, da democracia. Em países capitalistas ocorre o contrário, o direito à liberdade (e, de certo modo, a defesa da democracia) sobrepõe-se ao caráter igualitário e busca da justiça social. Eu, pessoalmente, não defendo, nem acredito no socialismo estrito pois, a mim, me parece que ele possui um defeito estrututal muito grave: um dos seus pilares é a crença de que os seres humanos são iguais. Nada mais errôneo que isso: os seres humanos são diferentes em suas aptidões e capacidades. (in)felizmente alguns são melhores que os outros e vão se destacar mais. Nada mais justo que serem melhor recompensados por isso! A competição e o empreendedorismo estimula o crescimento e o desenvolvimento pessoal e do país. E isso só ocorre num ambiente com liberdade de expressão e de iniciativa. Por isso o socialismo estrito não deu nem vai dar certo. Ele engessa o desenvolvimento do ser humano quando nivela todo mundo por baixo. O caso da paridade salarial sua e do lixeiro retrata muito bem isso. Garanto que você se sentiria muito mais motivado se ganhasse mais, ou se ganhasse de acordo com sua capacidade intelectual (que é maior que a do lixeiro). Ainda assim, Enrique, gostaria de deixar claro que não sou um liberal-capitalista extremado. Reconheço a imensa importância das idéias e realizações socialistas, principalmente quando atuam em contra-peso à voracidade liberal-capitalista. A social-democracia européia nasceu justamente das idéias socialistas que precisaram se adaptar para conviver em ambientes políticos liberais e econômicos capitalistas. Enfim, ajudaram a dar uma face mais humana, igualitária, social, a um ambiente liberal e capitalista. Isso ocorreu no Brasil também.”

“Concordo contigo, João. A falta de liberdade é a minha maior crítica a Cuba. Eu não posso ir a outro país, não posso viajar, falar o que penso na rua. Essa conversa que estamos tendo você jamais terá na rua ou com alguém que tenha conhecido há pouco tempo. Eu gostaria muito de visitar outros países, de receber amigos estrangeiros em casa de forma legal. Mas acredito muito no Raúl Castro, pois ele sempre foi mais ponderado e liberal que os outros membros do governo. Acredito que estamos no caminho certo e concordo com as reformas que ele está implementando. As coisas estão mudando, para melhor. Mas tudo tem seu tempo. Vivemos décadas sobre um regime e um modo de produção. Não se muda de uma hora pra outra. Toda mudança traz um choque e as pessoas precisam de tempo e informação para assimilarem. Ainda assim, acredito que com ele estamos no caminho certo.”

Depois desse papo cabeça fomos à cara da Mari e Wendy (mãe e irmã do Kike). Lá mais algumas revelações bombásticas! Na sexta-feira quando acordei tinha uma moça na casa do Enrique usando a máquina de lavar (um tanquinho). Era uma negra simpática de uns 35 anos. A Yení me apresentou ela (Mônica) e disse que tinha uma filha loira de olhos verdes. Fiquei rindo e fui tomar meu café-da-manhã.
Lá na casa da Mari, elas começaram a conversar com o Eric e comentar que ele é muito branco e ruivo. A Yení comentou que ele parecia a filha loira da Mônica. Ni qui ela comentou isso a Mari já emendou:

“É... a irmã do Kike... a outra, sem ser a Wendy...”

Enrique ficou meio sem graça, mas a Wendy já complementou:

“João, você conheceu a filha do Roly??? Ele nega, mas todo mundo sabe ele é o pai da filha da Mônica! Inclusive ela é igualzinha ao Enrique quando pequeno!!”

Eu juntei aquela revelação, com um comentário que eu havia escutado num jantar alguns dias antes na casa do Enrique e conclui:

ESSE ROLANDO (ROLY) É O VERDADEIRO ROLANDO LERO!!!! DESCAAAAARADO PRA CARALHO!!!! A PIPA DO VOVÔ SOBE, SIM! O COROA JÁ PASSOU DOS 70 MAS TÁ CARCANDO A VIZINHANÇA!!!

Vira e mexe ele some durante o dia e sempre encontrávamos na casa da Mônica.

Tião, que já achava o Roly gente fina, encontrou mais um gambá. Tal pai, tal filho.

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

No es fácil...




Cap. 8 – Johnny na Babilônia: WANTED!

Saímos Eric e eu rumo a Havana. Queria dar uma volta pela cidade e o viking aproveitou para ir comigo, aprender a andar de guagua e se situar na cidade. Estávamos no ponto de ônibus quando, do outro lado da rua, eis que vem de lá um serzinho saltitante, uma gazelinha periclitante. La Ingeniera...


"Eu só queria meter a cenoura na coelha, comer o peixe azul e soltar a bichinha de novo no mato de onde ela tinha saído.", lamentava Tião...parafraseando, mais uma vez, o mestre José Carlos Ribeiro.


La Ingeniera...

Chegamos no centrão e fomos almoçar num restaurante que cobrava em moneda nacional. Comemos camarão e arroz mouro por 40 pesos cubanos (1,5 dólar!).

De lá caminhamos por toda Centro Habana, entramos num ateliê de artesanato. Trocamos idéia com uns artesões malucos (todos muito inteligentes, conheciam muito bem o Brasil, ficamos discutindo política, etc.), tomamos um sorvete, tiramos algumas fotos e depois achamos um hotel chique que tinha internet.

Eric precisava desesperamente usar internet e fazer chamadas internacionais. Explico: o sujeito tirou um gap year e foi viajar pelo mundo. Passou pelos EUA e quando chegou no México se enamorou de uma chicana, se apaixonou e resolveu abortar a viagem pra viver em Guadalajara o seu grande amor.

Tião achou, logo de cara, o cara mais trouxa do mundo.

Eu ponderei os encantos e peças que o amor nos prega...

Tião falou que eu era um trouxa igual ao viking.

Pra piorar a epopéia, o Eric sofreu um grave acidente em julho passado. Foi atropelado, se arrebentou inteiro, ficou quatro dias em coma, um mês na cadeira de rodas. Depois de muita fisioterapia voltou a andar. As cicatrizes pelo corpo dele ainda são bem evidentes.

“Como esse Eric é trouxa, velho... o cara trocou um mochilão round the world por uma chicana!, exclamava o Tião pra mim, em português.

“Pô, Tião... o amor tem dessas coisas.... aparece quando e onde a gente menos espera...”, tentei ponderar.

“Meu ovo...meu ovo! Burro, imbecil. Deus não dá asa à cobra... ah, se eu tivesse grana e tempo pra fazer uma viagem dessas.... hunf... era o lema do Asa de Águia mermão: é pegar todas e arranjar uma namorada em cada canto que eu viver!!! Casamento, não! Casamento, não! Casamento na na ni na ni na nãããão!!!”, exclama furioso o nosso pequeno T-Rex.

“E pra piorar, Johnny... eu vi a foto da chicana. Velho, te juro, ela tá muito mais pra Frida Kahlo do que Salma Hayek....!!!” e já se virou pro Eric perguntando:

“Ei, Eric, você não acha que o seu acidente foi um sinal dos deuses???”

“Humm... como assim? No compreendo”, indagava o viking.

“É mermão, um sinal, saca? Que você tava no caminho errado! Que você precisava voltar pro seu eixo, seu plano original, viajar o mundo, se divertir, etc. e tal...”

“Hummm... creio que no... mi amor es tan buena gente... cuidou de mim no hospital e olha que a gente se conhecia há apenas uma semana”, falava o viking com os olhos brilhandos...

“F-o-d-e-u, Johnny... o viking é caso perdido. Tá com feitiço no corpo. E o acidente só fez piorar a cabeça.... desisto desse maluco...”

“Esquece, Tião. Deixa o cara na dele. E pára com suas ironias e principalmente de criticá-lo em voz alta em português. O cara não entende. Deixa de sacanagem!!!”

“Eric, você é um verdadeiro cabaço!”, continuava Tião em português.

“O que, no compreendo.... poderia falar em inglês?”, indagava o viking.

“Cabaço, saca? Cabaço! Não sei como se fala em inglês. Mas quer dizer mais ou menos o seguinte: que eu sinceramente acho que você só teve contato com uma vagina na hora do próprio parto – se é que não nasceu de cesárea!”, continua Tião em português.

“What??!!??

“Forget, Eric... he’s saying bullshit…”, encerrei a conversa.

Enfim, achamos um hotel com um orelhão e internet. Eric foi chamar a Frida Kahlo e eu ver meus emails. Até que não era tão lenta. Parecia uma conexão discada de 256kpbs. Rsrsrs

Mandei um email/telegrama pro papai e pra mamãe: “to vivo, tá massa, quando der, mando notícias PT saudações”.

Estava quase desconectando quando lá embaixo vi um email de um sujeito chamado “Julio Roque”. Abri aquela piorra, comecei a ler e fui ficando branco... a adrenalina subiu, a garganta travou, a mão suou, o cú piscou, o Robinho que tava na saída do intestino pedalou, o olho lacrimejou...

O cara, num e-mail MUITO MAL EDUCADO, me xingava de todos os impropérios possíveis e dizia que eu estava com sérios problemas em Cuba.

Pausa para outro enorme parêntese.

Como todo país socialista que se preze, conseguir um visto pra lá é uma epopéia. Tive o mesmo problema quando fui pra Rússia. Enfim, eu precisava de um endereço fixo (hotel ou casa particular – espécie de pousada) para ficar assinalado no visto. Dar o endereço do Enrique estava fora de cogitação, pois ele, como cubano, não pode hospedar estrangeiros. O que eu fiz? Fiz uma reserva numa casa particular pra conseguir o endereço.

Melhor dizendo, fiz reserva em várias casas particulares, uma de cada vez. Na primeira vez, cheguei com o voucher (pago!) no Consulado e fui informado que aquela casa particular não possuía licença específica para hospedar estrangeiros (isso depois de 4 horas de fila no Consulado). Na segunda vez a mesma coisa. Na terceira (que era essa casa do Julio Roque e da sua esposa Elsa), consegui o visto.

Obviamente eu não ficaria lá, pois minha intenção era ficar na casa de locais. Só que, assim que cheguei em Havana fui à casa particular e paguei pela reserva (!!). Entreguei o dinheiro na mão da Elsa e disse que iria para outro lugar com uma amiga que conheci no avião. Ou seja, eu não dei prejuízo a eles.

Agora estava lendo um e-mail ixxxsscroto do Julio dizendo que eu tinha deixado ele esperando, que não cancelei a reserva, que o quarto ficou à minha disposição e eu sequer tinha telefonado para cancelar, mandado e-mail, que eu tinha dado um enorme prejuízo a ele, pá pá pá hijo de puta, vou te fuder, etc. e tal, brasileiro bandido e outro impropérios.

E o gran finale, era que ele tinha avisado a polícia e as autoridades imigratórias sobre o ocorrido pois eu tinha cometido vários crimes, dentre os quais: prestar informações falsas, estelionato, entrada irregular no país, etc. e tal. e que, portanto, deveria ser penalizado e pagar pelos meus ilícitos cometidos e o arremedo de que, à partir daquela comunicação às autoridades policiais e imigratórias eu era considerado um ILEGAL em Cuba. Só faltava falar que eu era estuprador, pedófilo, e torturador sádico!!!

Encoxar a mãe no tanque perde – de longe.

Como já disse, meu mundo veio abaixo. Em frente àquele computador eu era agora, nas palavras do Sr. Julio Roque Hijo de Puta, um criminoso, um imigrante ilegal num país policialesco-socialista.

Como diria o filósofo José Carlos Ribeiro:

“Fosse o fantasma daquele pai corno do Hamlet, meu espanto não seria maior.”

O pior, meus amigos, é que parece que os transeuntes ao seu redor sentem o cheiro da merda e, mesmo sem saber o que está acontecendo, passam a te olhar como um criminoso. Não sei se é mania de perseguição, mas já podia ver os outros seres humanos escrotinhos daquela sala de computadores me olhando de canto e pensando:

“FEZ COISA ERRADA NÉ, GAROTÃO??? BAIXINHO BANDIDO! VAI PEGAR 15 ANOS DE CADEIA! SERÁ SODOMIZADO DIA E NOITE POR NEGÕES CUBANOS COM FALOS DE PROPORÇÕES AFRICANAS. PRELIMINARES.

Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. Precisava de calma pra pensar.

“Calma, Johnny. Você já se meteu em enrrascadas em outros países e conseguiu se safar. Não é aqui, que você domina o idioma e tem amigos que vai deixar se abater”, mentalizei.


Email Bomba do Julio


Desci pro lobby e encontrei Tião e Eric. Contei o ocorrido. A minha amizade com Tião, que já se encontrava estremecida desde o episódio da macumba de sábado, ruiu de vez.

“PUTA-QUE-O-PARIU! QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ FEZ??? VOCÊ E SUAS MANIAS DE ANTROPÓLOGO ENRUSTIDO! POR QUE NÃO FICAR NUM HOTEL, LEGALIZADO!!! PORRRRR QUE ESSA MANIA DE FICAR NA CASA DOS OUTROS PRA SABER COMO ELES VIVEM, O QUE COMEM, ETC. E TAL. ISSO NÃO TÁ COM NADA!!! O NEGÓCIO ERA PRAIA, MULHER E CACHAÇA! E AGORA, COMO VAMOS SAIR DESSA???”

“Fala baixo, Tião! Vou ligar pro Enrique...”

Como desgraça pouca é bobagem, a piorra do celular do Enrique estava desligado e na casa ninguém atendia. Decidi ir na casa particular do Julio e da Elsa, que ficava a uns 15 minutos dali. Cheguei e já fui logo soltando os cachorros em cima do fela-da-puta.

Aí, meus amigos, se liguem na fita!!!

A Elsa não tinha contado pro Júlio que eu tinha estado lá e PAGADO! Ficou toda sem graça, tentando se desculpar com o Júlio, dizendo que havia esquecido de avisá-lo. E por causa dessa piranha caloteira de marido, o FUDIDO da história ficou sendo eu!!! Começou a briga do casal e eu meti a colher sem dó nem piedade.

Momentos de tensão no caldeirão. Depois de muita discussão entre eu e Júlio, eu e Elsa, e Júlio e Elsa, o maldito disse que iria ligar na Imigração no dia seguinte e tentar resolver o problema. Dizendo ele, iria informar que foi um engano, que fez uma comunicação errada, etc.

Não havia mais nada o que fazer.... saí de lá mutcho putcho e fui tomar uns mojitos com o Eric pra relaxar a cabeça.

Paramos num bar excelente na esquida do Paseo del Prado com o malecón. O mojito estava excelente. Conhecemos duas espanholas: Mônica e Clara muito gente finas, que nos acompanharam nas dezenas de mojitos que tomamos.

Clara...Clara...clareia meu caminho porque a minha vida tá enrolada....!!!!



Cap. 9 – A Fuga

Não tenho a mínima idéia como Tião, Eric e eu chegamos em casa depois de 2 barris de mojito com Clara e Mônica. Eric deve ter decorado bem o caminho pois como ainda tava de resguardo não pode beber nem fumar (deve ser a razão pela qual faz tanta besteira amorosa... hehehe).

Logo cedo, antes do Enrique sair, comentei a minha situação com ele. Ficou um pouco preocupado e disse que ia contactar um amigo, cuja mãe trabalha na Imigração, pra pedir uma orientação. E me deu a dica de sair de Havana por alguns dias. Eu que já tava pensando em dar uma viajada pelo interior, além do Tião que não aguentava mais programas culturais e conversas sociológicas, decidimos iniciar nossa fuga naquele mesmo momento.

Abri meu Lonely Planet, mas Tião logo tomou das minhas mãos.

“Você já se divertiu bastante, já conversou com Deus e o mundo aqui, já sabe como vivem, como comem, o que pensam, já foi na sua macumba em pleno sábado à noite e já fez muita merda também. Agora quem dá os rumos da viagem sou eu. Leia-se: praia, cachaça e mulher. Eu escolho o destino”.

Bizoiou o mapa e achou do outro lado da ilha uma cidade chamada Baracoa, que estava descrita com a seguinte frase: “Isolated and intriguing, Baracoa is Cuba’s Shangri-Lá”

Sensacional, Tião. Sombra, água fresca, praia e sossego. É tudo que estamos precisando. Vumbora!

Baracoa fica no extremo leste da ilha a mais de 1.000 km de Havana. De lá, em dias de céu aberto, é possível ver o Haiti, a apenas 60 km dali. Eric decidiu se juntar a nós, sob os olhares ressabiados de Tião, e partimos de manhã mesmo rumo a rodoviária.




Obviamente não havia ônibus direto. Decidimos ir parando, cidade por cidade até chegar lá. Como a polícia já tava no nosso encalço, Eric sugeriu uma cidade chamada Cienfuegos, a uns 180 km de Havana, que sua irmã havia visitado anos antes.

O ônibus era relativamente confortável e depois de quatro horas de pinga-pinga chegamos nessa cidade, que fica na beira do mar, mas na costa sul da ilha. A idéia original era procurarmos uma casa particular, mas Eric veio a viagem inteira falando de uma senhora cubana que havia hospedado a irmã dela, que ficaram muito amigas, que ele precisava entregar uma carta a ela e que provavelmente poderíamos ficar lá.

Bem, seria uma boa idéia, mas a mulher sequer estava nos esperando... Ponderei isso com o Eric mas ele achou que deveríamos, ao menos, tentar. Antes ele queria por que queria passar num supermercado pra fazer algumas compras pra mulher, caso a gente ficasse hospedado lá. Falei que a gente poderia fazer depois, mas o cabeça dura insistia pra irmos antes.

Vamos os dois infelizes com as mochilas nas costas procurar algum supermercado. Obviamente não achamos. Tampouco o endereço da mulher, que era muito esquisito (“Edificio 16, Apartamento 6”). Obviamente ninguém sabia onde ficava. Até que Eric achou outro papel que constava uma direção mais completa (“Reparto Pastorita, Edificio 16, Apartamento 6”).

“Ahhhnnn”, exclamou uma velhinha para qual pedimos informação. “Reparto Pastorita. Está lejos de aqui. Hay que tomar un taxi!”.

Tomamos a piorra do táxi e eu já imaginando... Longe, Edifício 16...essa porra é uma COHAB....

DITO E FEITO. Era um conjunto habitacional popular do lado de fora da cidade. Até o taxista achar o tal Edifício 16 foi uma novela. Uma hora ele ficou puto, desceu do carro e começou a discursar:

“Mas que país é este em que vivemos???!! Ninguém sabe onde fica um endereço! Não há letreiros nos prédios!!! Que situação! Aonde vamos parar????”

Foi cômico, hilário e trágico ao mesmo tempo!!!! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Achamos a disgraça do prédio (eu já tava num humor daqueles... já tinha feito merda em Havana e agora continua insistindo no erro, prestes a continuar me hospedando em casa de cubanos...), subimos as escadas e o Eric bateu na porta do apartamento número 6. Uma senhora assustada com a presença de dois mochileiros abriu. Eric entregou a carta a ela. A mulher pôs o óculos, leu e abriu um sorriso:

“Entrem! Entrem! Você é irmão da Huaytasha????”

A história da família do Eric também é cabulosa: a mãe casou duas vezes, tem uns 3 filhos. O pai também casou umas três vezes e têm mais uns 5 filhos. Uma das ex-mulheres dele é iraniana, que já tinha essa filha iraniana (Huaytasha), que é então irmã de consideração do Eric, que tem mais uma penca de irmãos e irmãs. Caráleo....

Só sei que a tal da iraniana maluca deve ter sido muito boa pra mulher, porque ela ficou super feliz com nossa presença e fez questão que ficássemos lá.

Ok... here we go.

A mulher em questão se chama Lina. É engenheira aposentada, nascida em Havana mas mora em Cienfuegos há alguns anos. Tem um casal de filhos. O mais velho mora com o pai em Havana e a mais nova é engenheira de computação e professora da Universidade de Cienfuegos (Lissete). O apartamento é pequeno mas bem arrumadinho. Nos apossamos do quarto da Lina, que foi dormir no outro quarto com a filha.

Ela ficou extremamente contente em conhecer o Eric, pois tem muita estima pela irmã dele. A história é meio maluca, como deve ser a irmã do dito cujo. Parece que ela tava perdida na rodoviária de Havana e como não falava espanhol, todo mundo tava querendo passar a perna na garota. Daí a Lina viu aquilo e saiu em socorro da iraniana. Não entendi direito mas não havia ônibus aquele dia, e como as duas estavam indo indo pra Cienfuegos, acabaram dividindo um táxi com mais duas pessoas. Como chegaram lá já de madrugada, a Lina insistiu pra que a Huaytasha dormisse na casa dela naquela noite. A irmã do Eric acabou ficando lá um tempão e ficaram super amigas.

A Lina teve um problema de saúde recentemente e a irmã do Eric mandou medicamentos pra ela via correio, por isso a gratidão que a Lina tem por ela. Enfim, fui tomar um banho e não havia água no banheiro. Parece que há um tempo atrás teve um problema hidráulico e nunca consertaram. Então, escovar dente e tomar banho só de canequinha.

Logo depois chegou a Lissete com uma amiga (Janette, também professora da Universidade), que iria dormir lá naquela noite. Coitada, teve que dormir no sofá por nossa causa...

Enfim, a Lina veio no quarto e falou baixinho pra mim que a filha tinha chegado mas que não estava muito bem porque tinha recebido a notícia de que a viagem em missão que ela faria à Angola havia sido cancelada. E tascou a meter o pau no sistema cubano!

O Eric já havia me contado que a irmã tinha alertado ele que discussões políticas na casa eram proibidas, pois a mãe (Lina) era uma feroz crítica ao sistema, enquanto que a Lissete uma árdua defensora do sistema, militante do Partido Comunista Cubano, etc. e tal. Fiquei pensando se ela não iria me dedurar pras autoridades. Mas, enfim, ela estava nos recebendo na casa dela, o que, por si só, já era um ilícito...

Continuou a Lina dizendo que a filha estava esperando aquela oportunidade há anos, pois se passasse 2 anos trabalhando em Angola, receberia algo em torno de 10.000 dólares (pelos dois anos) e descontado alguns impostos e mais os 70% que ficam com o Estado (como éééé???), sobrariam uns 2.500 dólares, o que dava pra reformar o banheiro fácilmente...

Perguntei se a retenção de 70% era praxe e ela disse que sim. Todo cubano que vai trabalhar fora em alguma missão do governo tem 70% do salário retido!

Enfim, Lissete veio com os olhos marejados e nos cumprimentou simpaticamente. Depois escutei ela brigando com a mãe, dizendo que não queria mais tocar naquele assunto (viagem cancelada) e concordando com as razões do governo em cancelar a viagem.

Bueno, depois tive que administrar um outro problema com o Eric. Ele queria porque queria ir num supermercado fazer compras. Só que já era noite, não havíamos encontrado durante o dia e o lugar que estávamos era longe do centro da cidade. Além disso, a Lina foi bem enfática ao dizer que não aceitava dinheiro dele, comida, nada (ele ficava oferecendo tudo... sem noção!). Falei pra ele que iríamos no dia seguinte. A Lina disse que iria no dia seguinte pela manhã numa feira comprar vegetais para poder fazer um almoço ou jantar para nós. Eric começou a insistir para ir com ela, que vetou logo de cara.

O pior era o seguinte: o Eric não entendia nada do espanhol dela (ele até fala espanhol bem), então ela falava que não era pra ele ir, e o tiongo respondia

“ah, ok, então amanhã vamos juntos fazer compras!”

Tião perdeu a paciência (que já quase não existia) e chamou ele de canto, falando de forma bem franca e direta de que não ia rolar de fazer compras com ela, que no dia seguinte nós compraríamos outra coisa e pra ele parar de encher o saco com aquela história.

Enfim, pra não dar mais trabalho pra Lina, resolvemos sair pra dar uma volta e jantar fora. Convidamos as meninas mas elas tinham uma aula-prova no dia seguinte cedo. Quando estávamos quase saindo, elas perguntaram se era possível esperá-las se aprontarem, pois tinham mudado de idéia e iam conosco. Foda-se a aula-prova!

Tião já ficou animadão!

“u lá lá, Johnny! Agora começou a MINHA viagem! Olha o trem-querendo! Vumbooora, garoto!”

Saímos para dar uma volta pela cidade, que é bem bonita por sinal. Tem uma arquitetura francesa, com as ruas e quarteirões bem divididos e um boulevard que dá na praça central, onde está localizada a Prefeitura, a Catedral, um Teatro e outros prédios antigos.

Ah, esqueci de falar. Eric não sossegou enquanto não achou um telefone público que fizesse chamadas internacionais para a chicana. Por mais que os telefones estivessem totalmente fora do caminho, tínhamos que passar por lá.

Tião à beira de um ataque de nervos. Era muita falta de noção pra um dia só...

Enfim, pedimos às meninas que escolhessem um restaurante pois o jantar era por nossa conta. Como era segunda e a cidade não é grande, estava difícil achar algum aberto. Encontramos um de frutos do mar, mas cobrava em CUC e elas não queriam aceitar. Insistimos. Não era tão caro. Comemos caneloni de frutos do mar e saiu mais ou menos 40 CUC a conta inteira. Vimos que elas estavam um pouco sem graça.

Saímos de lá, compramos uma garrafa de rum e fomos caminhar pelo malecón. Sentamos na beirada do cais e ficamos um bom tempo conversando. Com o desenrolar da conversa, elas nos contaram que a conta deu mais ou menos 3 vezes o salário delas!

No es facil...
Conversamos sobre a vida em Cuba, o sistema de educação, as viagens que elas já fizeram (Janette – Canadá; Lissete – França e Argentina), sempre em missão do governo.

Comentei sobre um livro que eu li antes da viagem (A Vantagem Acadêmica de Cuba – Martin Carnoy), indicado por um professor meu do mestrado. Trata-se de uma análise, sem o viés ideológico, das razões pelas quais a educação de Cuba é melhor que a dos outros países americanos.

O livro é bastante rico e vale a pena lê-lo por inteiro. Resumidamente as razões pelas quais os alunos cubanos e a educação daquele país estão bem à frente das outras são: valorização da profissão do professor; currículo estruturado e rígido nacionalmente; foco na formação de um ser humano completo e não mera mão-de-obra trabalhadora; ensino de menos conteúdos mas de forma bastante aprofundada; formação de alunos “pensantes” e não meros decoradores de fórmulas e conteúdos a serem cobrados no vestibular; formação social, ética e moral; existência um grande capital social; desnecessidade de trabalhar após o horário das aulas, dentre outros fatores.

Depois passaram duas gringas polacas com dois jineteiros. Um deles parecia o Michael Jackson nos tempos do Jackson Five e o outro era a re-encarnação do Bob Marley. A meninas estava muito loucas e os jineteiros mais ainda por alguns euros.

No dia seguinte fomos, Eric e eu, dar uma volta geral na cidade. Caminhamos por toda a cidade (com várias pausas para o Eric ligar pra Frida Kahlo), vendo os pontos históricos, turísticos, etc. Encontrei uma internet num teleponto mas nada de e-mail do Enrique sobre a minha situação...

Voltamos à noite carregados de compras (pão, queijo, leite, manteiga, óleo, etc.). Lina ficou um pouco brava pois insistia que nós não devíamos ter comprado nada...

Ela e Lissete prepararam um belo jantar criollo (comida típica cubana) com arroz mouro, carne de porco, legumes e suco de maracujá. Estava uma delícia. Lina contou várias histórias de Cuba, especialmente do “período especial”.

O “período especial” foi o nome carinhoso que o governo cubano usou para denominar a década de 90... Com o fim da URSS e o colapso do ideal comunista, Cuba se viu de uma hora pra outra sem o apoio da URSS que lhe subsidiava e provia grande parte dos produtos necessários à sua sobrevivência como país, desde petróleo até alimentos. O país entrou numa grave crise econômica, energética, alimentar. Faltava tudo. Combustível, alimentos, remédios.

Se vocês quiserem ter uma boa idéia do que foi este período, sugiro a leitura do livro “Trilogia Suja de Havana – Pedro Juan Gutierrez”. Aliás, este livro, assim como vários outros, é censurado em Cuba. Um dia entrei numa livraria e não achei nada do Vargas Llosa. Perguntei ao Enrique e ele me disse que é porque Cuba não paga direitos autorais (mas havia Garcia Marquez e até Philip Roth). Enfim, nada me tira da cabeça que é devido à censura também.

Voltando ao período especial, várias pessoas (Roly, Lina, etc.) me relataram que, de fato, foi um período extremamente difícil. Só havia luz elétrica 12 horas por dias. No verão era impossível dormir sem um ventilador. As pessoas passaram muita necessidade.

Lissete disse que naquela época era comum ver no malecón de Havana pessoas se atirando ao mar em balsas improvisadas e até mesmo em pranchas, tamanho o desespero. Ela disse se lembrar muito bem de uma “balsa” construída com uma carcaça de um carro, onde uma família inteira entrou e se jogou ao mar. Outro fato narrado por Lina foi o de um vizinho (ali de Cienfuegos mesmo) que se lançou ao mar numa balsa improvisada e, desde então, há 16 anos, a família não tem notícias dele. Não sabem se morreu, afogou-se, foi comido por tubarões, chegou aos EUA, foi preso ou tá rico...

Lina continuou contando histórias até que literamente dormiu na cadeira de balanço.

Kkkkkk

Eric também foi se deitar. Eu e Lissete ficamos conversando até altas horas da madrugada. Ela me mostrou várias fotos antigas, inclusive uma do irmão dela na época do período especial. Uma comparação bizarra! O cara estava branquela, raquítico e com olheiras escuras.

Realmente, no es fácil...



Cap. 10 – Mi vida en tus manos...

No dia seguinte acordei sentindo um cheiro de polícia no ar. Chamei o Eric pra cairmos fora de Cienfuegos, pois já havíamos conhecido toda a cidade. Ele topou e resolvemos ir pra Trinidad, uma cidade de praia a uns 90 km dali.

Comunicamos a Lina, que ficou muito triste com nossa partida. A mulher é tão gente fina que preparou lanches imensos pra nós levarmos na viagem. Disse que a casa estava sempre aberta pra nós, que tinha ficado muito feliz com a visita, etc. e tal. Ainda nos deu de presente dois bordados que ela fez. Esta mulher é realmente muito gentil.

Quando estávamos prontos, só esperando o Eric sair do banheiro, ela me puxou de canto e começou a se lamentar mais ainda com nossa partida. Disse que ia sentir nossa falta, que tinha gostado de nós, que nós alegramos a casa, que ela passa o dia todo sozinha, sem ninguém pra conversar, pá pá pá. Disse que vive insistindo com a Lissete pra que arranje um filho, assim ela teria um neto pra cuidar e se distrair.

“Xiiiii Tião, olha a véia aí rogando praga pra você! Tá lascado, mermão!!!”

“Sai fora, Johnny. Digo, vumbora logo dessa porra!!!!”

Quando estávamos quase entrando na guagua pra rodoviária tomei um susto!

ESQUECI O TIÃO NA CASA DA LINA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

BARALHO!!!!! Deixei o T-Rex conversando com umas amiguinhas na estante e esqueci de buscá-lo!!! Voltei correndo lá! Nossa amizade que tinha começado a voltar a ser como antes estava em frangalhos novamente!

Tião estava completamente possesso!

“Seu F.D.P., você me largou lá de propósito com a Lina e sua arenga de preto velho querendo arranjar filho pra mim!!! Quer me fuder, me beija porra!!!! O que você vez é imperdoável!!!!”

Enfim, pegamos um busão (zuado, cheirando a mijo seco) pra Trinidad: Eric, Tião e Eu. Antes, da rodoviária mesmo, liguei pra Margarita, uma indicação de casa particular em Trinidad que o Enrique havia me passado. Ela disse que havia quarto disponível e que iria nos buscar na rodoviária com um cartaz escrito nosso nome. Reforçou que nós deveríamos procurar o cartaz! Fiquei imaginando se haveria tanta gente assim na rodoviária...

Bom, quando chegamos lá havia uma centena de donos de casas particulares desesperados por turistas, gritando ensandecidamente “casa particular!!!!” “casa particular!!!”, mostrando álbuns e álbuns de foto, disputando os gringos a tapa! Coizahorroróóza!!!!

Depois de uns 5 minutos encontramos Margarita com o cartaz escrito “João / Eric”. A casa dela é bem aconchegante e o quarto confortável. Ela se ofereceu pra preparar um almoço por 8 CUC cada e aceitamos. Estava muito bom! Tinha peixe, camarão, salada, arroz, suco, sobremesa, tudo bem servido.

Depois saímos para dar uma volta, reconhecer a cidade e Eric fazer um mapeamento de todos os orelhões disponíveis para fazer chamadas internacionais... Eu aproveitei pra usar a internet de um hotel pra ver se tinha algo do Enrique... nada sobre o tal amigo cuja mãe trabalha na Imigração...

Mandei um e-mail pra ele perguntando se tinha alguma posição e finalizei com:

“Enrique... mi vida está en tus manos...”

Não havia o que fazer... minha vida de fato estava nas mãos do Enrique... procurava pensar o mínimo naquela situação, pra não ficar encanado e estragar a viagem...

Tião também usou a internet mas só por 2 minutos.

“Já, Tião?”

“Já... só tem e-mail com títulos ‘cadê você?’, ‘urgente’, ‘me ligue assim que ler este email’, ‘filho, dê notícias, estou desesperada’, ‘por que seu telefone está desligado, seu cachorro?’, ‘você tá aonde, COM QUEM?’, ‘a dívida venceu e você não me pagou’, ‘você não vale nada...’, ‘definitivamente desisto de você’ ... só bucha, Johnny.... eu vim foi pra relaxar... hehehehe”

Passamos numa agência de viagem e Eric encasquetou de fazer um tour a uma cachoeira no dia seguinte. Eu não estava nem um pouco a fim, pois aquilo me parecia extremamente turístico. Me dá arrepio entrar naqueles ônibus sightseeing cheio de turistas munidos das câmeras fotográficas com poderes microscópicos, um guia retardado que não pára de falar, e um monte de retardado escutando e tirando foto como se tivesse num zoológico apreciando animais em suas jaulas. Enfim, Eric fechou o pacote sozinho pois Tião (que agora tinha total controle sobre o resto da viagem) decidiu que iríamos à praia no dia seguinte.

Trinidad é uma cidadezinha pequena, estilo colonial, com todas as ruas de paralelepípedo, casarões antigos e uma bela Praça Central com a Catedral, um coreto e vários botecos (bodeguitas) e restaurantes. Ali, à noite, o bicho prometia pegar!

Voltamos pra casa de Margarita, tomamos um banho e nos preparamos para night. Estávamos saindo quando o Eric me aparece não apenas com sua ultra-mega-gigante-telescópica Canon, como também com todo o aparato de tripé, etc. e tal.

“Eric, onde você pensa que vai com isso...?, questionou Tião em tom intimidatório.

“Tirar algumas fotos noturnas...”

“Não, não e não... nós vamos sair pra tomar todas, bailar salsa, conocer las chicas! Essa câmera e este tripé não combinam nada com a ocasião!”

Não teve jeito, o infeliz saiu travestido de fotógrafo da National Geographic. E nós ao lado pagando o maior mico...

Nessa noite fiz uma lavagem cerebral na cabeça do viking. Quase consegui convence-lo a retomar a viagem pelo mundo.

Enfim, quase... lá pela tantas ele voltou pra casa sozinho. Eu e Tião caímos na gandaia etílica amorosa. Não sei o que acontece, mas sempre quando é noite de lua cheia, chega uma hora que Tião e eu nos tornamos a mesma pessoa....

Parece lenda do lobisomem.


Trinidad



No dia seguinte tomamos um belo café-da-manhã na casa da Margarita. Eric foi pro passeio de turista. Eu me mandei pra praia, pois na festa à noite havia conhecido uns brasileiros (os únicos de toda a viagem... surpreendente...) que me disseram que lá havia um “esquema”...

A Margarita falou que eu tinha que pegar um ônibus vermelho (a praia fica a 12 km da cidade, que está no topo do morro) num ponto tal. Cheguei lá e o busu já tinha passado... tive que ir pra praça central pegar um táxi, pois não havia outro jeito de chegar na praia. O busu só passava 3x por dia.

No es facil...


A cidade é bem pequenininha e no caminho era engraçado ver a moçada da festa na noite anterior. Todo mundo com uma cara de ressaca misturada com “fiz muita merda ontem”. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Chegando lá na praia, Tião fez uma coisa que o mestre José Carlos Ribeiro lhe ensinou: molhou, então, o dedo de cuspe e sentiu a direção do vento. Ele podia jurar que o vento nos encaminhava pro puteiro mais próximo.

O puteiro em questão era uma escolha de mergulho na beira da praia. Comecei a trocar idéia com os dois instrutores (Leonid e Igor). Eu já havia feito um curso de mergulho no Brasil mas não tinha a carteira internacional pois faltei no dia da prova (kkk). Enfim, xaveca daqui, paga um rum dali, um banho de mar acolá e o preço foi baixando... e as condições foram ficando melhores... E quando estavam em ótimas condições de temperatura e pressão, faltava um detalhe... ir e voltar todo dia pra praia desde Trinidad era muito fora de mão... O onibus saia as 9 da Trinidad (o pessoal ia mergulhar cedo), pegar um táxi todo dia pra ir e voltar tava fora do orçamento.

Daí o Leonid falou que tinha um amigo que era o chefe da agência de viagens do governo (lá tudo é do governo. Ainda que todos os empreendimentos turísticos sejam administrados por grupos estrangeiros, o Estado tem, no mínimo, 51% do capital de todas as empresas), que podia tentar me ajudar...

Senti o cheiro do tal “esquema” dos brasileiros no ar. Em Cuba, tudo é esquema. As pessoas ganham muito mal e fazem vários rolos pra sobreviver, ou viver melhor. Como todo mundo trabalha pro governo, desvia o que lhe está ao alcance. Exemplo: se uma mulher trabalha numa avícola do governo, rouba um frango por dia. Se uma pessoa trabalha num hospital, rouba remédio pra vender no mercado negro.

Enfim, eis que me aparece o tipo. A cara já dizia tudo... o nome: Carlos. De pronto o apelidei (apenas pra mim e Tião) de Carlos, o Chacal... (aquele terrorista venezuelano). Comecei a conversar com ele. Troca idéia daqui, questiona dali, sonda de cá, joga um verde de lá. No final da tarde ele nos perguntou até quando poderíamos ficaria por lá. Pra botar uma pressão Tião falou que tava pensando em ir embora no dia seguinte. Ele falou pra ficar mais um dia e retornar lá na manhã seguinte pois poderia rolar uma “coisa bacana”.
Chuta qual o nome da agência de viagens??? Cubanacan! Lembrei daquela novela Uga-Uga! kkkkkk


Carlos, o Chacal


Voltamos pra Trinidad e encontramos o Eric todo pintado de laranja. Sim, durante o tour o guia pegou uma tal fruta laranja e pintou a cara de todos os participantes. Agradeci por não ter ido naquele tour e pagado aquele mico de aparecer na casa particular pintado de buriti...

Enfim, Eric resolveu voltar pra Havana no dia seguinte (ele tinha que voltar pro México, por ordens da chicana...). Nós ficaríamos lá mais um dia, pelo menos, a conferir o esquema do Chacal.

À noite Margarita preparou um jantar espetacular de LAGOSTA!!! Por apenas 12 CUC!!! Algo como 10 euros pra comer lagosta com vários acompanhamentos. Eu nem lembrava mais o gosto de lagosta... Agora estava me esbaldando pelo preço de um Big Mac.

Depois Margarita veio com um tal livro de registro que eu e Eric devíamos assinar. Segundo ela, tinha a obrigação de informar as autoridades policiais e imigratórias sobre o fato de estrangeiros estarem se hospedando (legalmente) na sua casa particular.

Gelei.

Expliquei mais ou menos a minha situação (não podia abrir muito o jogo pois ela não podia saber que eu tinha ficado na casa do Enrique, falei que era uma amiga qualquer).

Ela perguntou se era cubana. Eu disse que sim. Ela respondeu que essa pessoa poderia tomar uma multa de 1.500 CUC e, se reincidente, ter a casa confiscada....

CARÁLEO.... o Enrique poderia tomar uma multa que é de 100 vezes o salário dele ou até perder a casa por minha culpa?

E emendou dizendo que agora, assinando aquele livro dela, no dia seguinte ela levava no escritório da imigração local (era uma obrigação dela) e eu começava a “entrar no sistema”, portanto o governo ia saber que, finalmente, eu dei entrada num estabelecimento legal e ia saber onde eu estava. Ela falava tudo aquilo como se fosse a solução dos meus problemas. Entrar no sistema...

Enfim, poderia até resolver um problema – que era, de certa forma, a legalização pero no mucho da minha entrada no país. Mas se a polícia estivesse me procurando, me acharia facilmente. Eu começava a deixar rastros... e não estava nem um pouco confortável.

Fui tomar uns mojitos pra desencanar.




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